O velho Hegel dizia, em sua Estética, que a força da criação poética consiste em que a poesia modela um conteúdo interiormente, sem recorrer a figuras exteriores ou a sucessões de melodias; transforma a objetividade exterior numa objetividade interior que o espírito exterioriza para a representação sob a própria forma que esta objetividade deve encontrar no espírito. Portanto, dizemos nós, erigir uma arquitetura poética capaz de harmonizar conteúdo e forma é um desafio que raríssimos poetas conseguem alcançar. OU bem a poesia nos prende pela forma ou pelo conteúdo apenas. Mas estamos diante de "Cio de Vento", de Carlos Lúcio Gontijo, e não sabemos o que de mais belo nos encanta: se a forma, se o conteúdo destes poemas. Mas não nos leva a maniqueísmos a poesia de Carlos. Digo isso apenas para ressaltar a solidez arquitetônica de "Cio de Vento", no nó cego entre conteúdo e forma, pois aí está a raiz da beleza do livro de Carlos.

      O conteúdo, este não foge muito (e nem o quer) ao destino da grande poesia das Gerais: que diz da gente mineira querendo se libertar (sempre) das misérias e da solidão afixada pelas montanhas; da mão esquerda apontada para a pobreza do Nordeste, a direita para a riqueza obscena do Sul-maravilha. Carlos Lúcio não nos induz a uma tomada de posição generosa e fértil diante da vida. Iluminar com a poesia esta paisagem que nos foi dada (por milagre ou maldição) é missão que só os grandes poetas podem cumprir. Como o fez Gontijo, neste seu “Cio de Vento”.
      E para isso o poeta teceu, com rara sensibilidade, sua arquitetura poética. É necessário, pois, ao leitor, caminhar lentamente pelos corredores, degraus, rampas e platibandas deste monumento, até atingir janelas e sacadas para vislumbrar a paisagem sofrida, mas generosa, que o poeta nos descortina. Nada dessa arquitetura vazia das grandes metrópoles. Não. Na construção de “Cio de Vento” a memória do poeta nos ilumina até ruas descalças e quintais; pássaros e frutas; lembranças e projeções; peixes e bolas de meia; e plantas e paixões.
      Em Carlos Lúcio, a poesia não se quer subjugada a modismos nem se quer desvinculada do tempo; quer cavalgá-lo; clama que os homens sejam donos de seu destino. Ela sabe, por entre ritmos e rimas, que o tempo presente que apodrece é o mesmo que está adubando um tempo de igualdade e justiça, um tempo enfim melhor para todos nós: “Estou exposto às facadas do cotidiano/E o mesmo deus que me rasga os panos/Vem e guarece-me as feridas...”/.
      Vida longa às artes como este “Cio de Vento”. São elas que nos redimem a carne jogada no mundo e nos iluminam a alma como seres humanos.
      Harildo Norberto Ferreira (jornalista) – Belo Horizonte, outubro/87.

COMPOSIÇÃO:
Jada
CAPA:
Cizara
REVISÃO:
Neuber Soares
DIAGRAMA/ACOMP.GRÁFICO
CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ

Gontijo, Carlos Lúcio: Cio de Vento (poemas)
Belo Horizonte: NOVA SAFRA, 1987