Carlos Lúcio Gontijo

Padre Pedro Paulo Michla nada tinha a ver com a imagem religiosa tradicional, em que o sacerdote emite uma aparência física de origem divino-humana, com características eternas e posições irreversíveis. Por isso, o cidadão Paulo Michla, além de pregar religião, exerceu um papel histórico no desenvolvimento da cidade de Santo Antônio do Monte, onde determinou a si mesmo dar-se por nascido, realizar seu projeto em silêncio e abnegadamente, contudo sugerindo a todos um tácito desejo de que fosse seguido em sua cultura marcada por fé em Deus para construir e disposição para ajudar o próximo com a força do próprio braço, fatores que juntos formam um bem iluminado terço de orações. Padre Paulo Michla sabia, então que havia algo mais a ser feito do que apenas exercer a missão de tornar as pessoas espiritualmente iguais através do batismo. Dessa forma, sob a filosofia de que evangelho embebido em caráter religioso e social, mais composto de exemplo prático do que de palavras, o alemão-brasileiro, nascido em Klausberg, em 29 de junho de 1911, veio aportar-se em Santo Antônio do Monte, município localizado no Oeste mineiro, a 180 km de Belo Horizonte, em janeiro de 1943, onde foi pároco por 18 anos.
Hoje, depois de tantos anos, aqueles que o conheceram têm uma dimensão conceitual mais justa sobre a figura polêmica, austera e de escassos sorrisos, capaz de gestos vigorosos e sermões mais para sessão de exorcismo do demônio da ignorância e da letargia que dominava os seus fiéis do que mera pregação evangélica. Isso talvez ocorresse porque o alemão-brasileiro, de crença e batina, era um inconformado tanto com a pobreza material e espiritual de seus paroquianos, quanto com o desperdício de energia humana em frugalidades e mesquinharias de sentido avesso à realização pessoal e contrário à edificação da consciência de grupo, da organização coletiva e do progresso comunitário.
Se muitos temiam o seu confessionário prussiano, fugiam de sua pregação incisiva, pessoa alguma que tenha residido em Santo Antônio do Monte jamais pôde viver sem ter necessitado abrigar-se ou utilizar-se de algumas de suas obras, como a Santa Casa de Misericórdia, toda equipada com aparelham importada da Alemanha, através de instituições e fundações germânicas, e que até hoje presta serviço à população santo-antoniense. Entretanto, o empenho de Padre Paulo Michla não parou por aí, já era cônego, mas num inconsciente tratado de afeição das pessoas, toda a cidade se referia a ele como “o Padre Paulo”. Mais que costume, esse fato pode ser tomado como espontânea prova de respeito e carinho por aquele devotado cidadão germânico-santo-antoniense, que continuava, renitentemente, agindo sobre a inércia social, o individualismo e o egoísmo que ainda impedem o surgimento de um país menos injusto o suficiente para, pelo menos, deixar de fazer muitos brasileiros se sentirem humilhados e excluídos em seu próprio torrão natal. Assim, como mestre-de-obras do engenho das preocupações e carências comunitárias, Padre Paulo, ainda ergueu a Casa da Criança, o Asilo dos Velhos, o Colégio Estadual Dr. Álvaro Brandão, com o qual contribuiu decisivamente para a deselitização do ensino na cidade, onde funcionava apenas um colégio particular que, ainda que quisesse, não poderia receber a grande quantidade de estudantes que não tinham qualquer condição de arcar com as mensalidades.
Agora, quando assistimos à teologia da libertação e às pastorais da Igreja com abrangência sócio-política, vemos o quanto Padre Paulo Michla andava à frente de seu tempo, praticando uma missão religiosa, onde, à palavra de conforto e de perdão, juntava-se o chicote da cicatriz necessária com que Cristo afugentou os vendilhões do templo. O cidadão Paulo Michla não foi político de politicagem, daqueles que “cartoriam” interesses e pastoreiam influências com jeito e cara de anjos, de gente de bem, todavia realizou mais por Santo Antônio do Monte que muitos prefeitos e tanto quanto José de Magalhães Pinto, filho da terra, que foi governador de Minas Gerais, ministro e senador da República (transformando realidade um poema de nossa autoria, publicado no livro “Cio de Vento”, nosso 3º trabalho, intitulado Decreto-Lei: “A ferida da folha que cai / Não arde ao sopro do vento / Então, antes que tarde, Pai / Decretai ao povo alento pleno / Sem o veneno dos parlamentos”).
Padre Paulo Michla era uma espécie de apóstolo de Deus, um político de fé e sem pasta, um missionário desarmado da paz social, buscada exatamente através dos setores desprezados pelo governo brasileiro: saúde, educação, assistência às crianças e idosos abandonados. Podemos afirmar que o tempo cuidou de acalmar as desavenças e trazer a lume uma análise desapaixonada sobre a verdadeira face do Padre Pedro Paulo Michla, que se fez cidadão brasileiro, quebrou o nacionalismo tacanho e fronteiriço, sem que houvesse precisão da histórica onde de revisionismo político-ideológico provocada pela queda do Muro de Berlim, pois o vigário alemão-brasileiro já demolia em tempos de outrora as barreiras do preconceito e da intolerância. Sempre é fácil criticar quando não se está numa posição de responsabilidade, porém é bastante difícil julgar os atos de homens empreendedores e absorventes como Paulo Michla que, além de materializar sua capacidade de trabalho, cometeu a façanha de colaborar para a reengenharia da personalidade das pessoas, da conduta e do dever social de cada cidadão.
Padre Paulo Michla faleceu no dia 3 de março de 1980 na Alemanha, onde havia ido a passeio. Sentiu um forte calor no peito, seguido de um espasmo e um último suspiro para oxigenar-lhe a alma de habitante do Planeta Terra, filho de todas as pátrias, sem monopólio de fronteira – mas acima de tudo santo-antoniense!

Diário da Tarde, 30 de junho 1995.