Carlos Lúcio Gontijo

23 de julho de 2007


A FUNDAÇÃO de um jornal, sob condições socioeconômicas e culturais tão adversas, feito as que se verificam no Brasil, é fruto da ação dos que são movidos pelo impulso divino e não-aconselhados pela razão humana, por que têm em si um princípio melhor. Ou seja, veículos impressos, em uma nação constituída de tantos indivíduos analfabetos e semi-alfabetizados, padecendo entre a fome e a miséria absoluta, nascem, exclusivamente, do desejo de homens que sentem a necessidade – ou o dever – de alertar e despertar seus irmãos em relação à realidade, por meio da informação diária.

MAIS QUE a perda de emprego e fechamento de postos de trabalho, os jornalistas do DIÁRIO DA TARDE lamentam que não tenha existido nenhuma boa vontade com um produto editorial que saiu pela primeira vez às ruas em 14 de fevereiro de 1931, numa terça-feira de carnaval, com o destino de ser um jornal popular, mas sem a precarização do noticiário como assistimos hoje.

DESDE A sua fundação, o DIÁRIO DA TARDE acreditou na tese de que o homem carece de informação completa, honesta e exata, sendo que o direito a ela não é somente uma prerrogativa do indivíduo, mas sobretudo uma exigência do próprio bem comum.

O DIÁRIO TARDE, o jornal praça pública da Grande-BH, atravessou guerras, revoluções, períodos democráticos e ditatoriais; transformações tecnológicas e inovações na área da elaboração editorial e de impressão, mas não venceu as administrações pautadas em vaidades e idiossincrasias inconfessáveis.

OS JORNALISTAS que construíram o DIÁRIO DA TARDE, que, mesmo sob o império de uma condução temerária, ainda conseguia manter uma circulação em torno de oito, 10 mil exemplares/dia, mais ou menos a mesma de seus concorrentes mais próximos, morre como sempre viveu: sem outdoor na rua, sem anúncio, sem nada.

FICA EM nós, jornalistas (do chão da fábrica, artesãos do conteúdo noticioso), o sentimento de que grande parte dos que gerem os meios de comunicação não estão preocupados com o enriquecimento do ser humano por meio da informação de qualidade, contribuindo, ao contrário, para a violência e o empobrecimento do convívio social, ao se voltar para questões menos sérias, indignas e desprovidas de qualquer valor.

ENFIM, nós do DT, perdemos o nosso emprego, a categoria assistiu ao fechamento de muitos postos de trabalho e o leitor ficou sem o tradicional jornal da Grande-BH (mas que circulava em muitas outras regiões do Estado), propagando informação, calor humano, proximidade e amor ao próximo, fatores que o levaram a ser amado e respeitado durante 77 anos – sepultados, no dia 23 de julho, depois de 12 meses de angustiante cerimônia fúnebre, numa explícita prova de que destruir é sempre mais fácil que construir.

(Artigo publicado no site do Sindicato dos Jornalistas)