Gente sem hábito de leitura e academias sem escritores

Carlos Lúcio Gontijo

26 de junho de 2009

A sociedade moderna não tem lugar para os desinformados, os analfabetos ou os que leem e não entendem o conteúdo do que leram. Numa rápida observação, podemos detectar que não há como ser bom psicólogo se não souber elaborar laudo escrito; ser grande advogado sem conseguir redigir petição nem expor graficamente a defesa de seu cliente.

Ou seja, sem dispor de razoável capacidade de texto, não tem como trabalhador algum sobreviver profissionalmente. Não é à toa, portanto, que muitas empresas multinacionais andam dando preferência a candidatos que saibam expressar bem em seu próprio idioma, em vez de contratar os que melhor falam a língua do país-sede do conglomerado empresarial.

O menosprezo pelos livros fica bastante claro quando assistimos a escândalos envolvendo a compra de obras adotadas nas redes de ensino, onde é bastante comum o tráfico de influência de grandes editoras e autores de renome, em ação anômala e determinante não apenas na escolha de obras literárias inadequadas, mas também na geração de obstáculos para a criação do imprescindível hábito de leitura – fator extremamente dependente do incentivo advindo das primeiras leituras.

O mundo da literatura se encontra recheado de pedras pelo caminho, pois o livro permanece como produto desprovido de valor. Ou melhor explicando, seja lá qual for o preço estabelecido para a comercialização de uma obra literária, a sua venda dificilmente encontra encaminhamento em número expressivo, pois a leitura não é tida como necessidade prioritária – e o que não é prioritário leva a pecha de supérfluo ou demasiado caro.

Nossa experiência como autor nos ensina que muitas são as pessoas que leem apenas se o livro lhes chegar gratuitamente às mãos. E, lamentavelmente, nesse meio não estão apenas cidadãos de baixos índices educacional e econômico, mas também gente do mundo das artes – inclusive poetas e escritores. Enfim, a menos-valia atinge a produção literária de forma cabal e generalizada.

Todavia os males que atingem a edição de livros no Brasil, onde o comum é o autor custear a impressão de seus livros, reside até mesmo nas academias de letras, nas quais têm assento muitas figuras que não são do ramo e veem a precária imortalidade – metaforicamente prometida – como uma espécie de status. Em nossa devotada labuta de escriba menor já assistimos a gente eleita como novo “imortal” correndo, surrealisticamente, para editar um livro de última hora, com o objetivo de justificar ou tomar de forma menos vergonhosa a sua posse.

Fechando o leque de dificuldades, ainda temos a Lei Rouanet, que coloca no mesmo patamar todos os compositores, músicos, poetas, escritores e criadores de arte em geral, dando origem a casos inexplicáveis como a polêmica liberação para que o renomado Caetano Veloso capte recursos (aproximadamente dois milhões de reais) a fim de promover seu novo show e mais recente CD. Alguém já ouviu falar, por exemplo, que a mundialmente conhecida Madonna procurou ou foi contemplada com recursos do Tesouro norte-americano para viabilizar os projetos de sua carreira?

Todavia, ao que parece, a democracia no Brasil permanece um regime que assiste a poucos e, ainda pior, tem dono, como nos ficou explícito no recém-descoberto caso dos atos secretos no Congresso, que tem como presidente um membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), ao qual caberia pelo menos deixar-se guiar pelos sentimentos de sensibilidade, compromisso e responsabilidade pelo próximo, que habitam o coração e a mente dos verdadeiros escritores – independentemente de serem ou não conhecidos, terem ou não assento nas academias de letras Brasil afora.


Postado em 26/06/2009

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